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Geração Z está preparada para o setor público? Veja o que dizem os especialistas

A geração Z entra no mercado de trabalho com um leque de possibilidades. Dentre elas, o setor público chama atenção dos novos profissionais

Saiba como a geração Z enxerga o serviço público - Foto: Adobe Stock
Saiba como a geração Z enxerga o serviço público - Foto: Adobe Stock

Os estereótipos do setor público apontam para servidores mais velhos e burocratas. Mas, as novas gerações vem ocupando cada vez mais os espaços e as repartições Brasil afora, e mudando esse cenário. O comportamento da geração Z no mercado de trabalho, seja público ou privado, é assunto de pesquisas no mundo inteiro.

74% dos jovens acreditam que seu desenvolvimento profissional impacta na autoestima e no bem-estar, de acordo com pesquisa da empresa de saúde Alice, em parceria com BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo, Grupo Fleury e Flash.

Nascidos entre 1997 a 2010, a geração Z é a primeira a ser nativa digital. Ou seja, não conhecem um mundo sem internet. O acesso rápido e fácil à informação moldou o perfil curioso, ágil e inovador desse grupo. Que, no mercado de trabalho, não é muito diferente. 

Por causa do seu retrato voraz, sempre ativo e em busca de novidades, é comum pensar que a geração Z quer liberdade para experienciar diversas profissões, e a estabilidade do serviço público ficaria em segundo plano ou nem sequer considerada. Mas, o cenário não é preto no branco.

Com a onda de aposentadorias entre servidores, novos concursos públicos são abertos no país. O Censo de Concursos Públicos de 2023, realizado pela Qconcursos, trouxe o perfil do concurseiro brasileiro. Dentre as características, a média de idade dos candidatos chama atenção: de 25 a 39 anos.

Hoje, são 11 milhões de servidores públicos no país, segundo dados do Instituto República.org. 1 em cada 8 trabalhadores brasileiros está no serviço público. O número pode parecer alto, mas, na prática, representa apenas 12% da força de trabalho.

O Brasil tem menos servidores do que outros países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em que a média das nações participantes, como Chile e Dinamarca, é de 23,48%, de acordo com dados da International Labour Organization (Ilostat).

A geração Z representa uma parcela significativa da força de trabalho, que deve chegar a 30% no próximo ano, segundo pesquisa da Intelligent.com. Com um leque de possibilidades, esse grupo também abre os olhos para o setor público.

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Da segurança pública à mobilidade urbana, o serviço público está em todo lugar. Para jovens, como Lua e Sami, trabalhar no setor era um sonho, que foi realizado em 2024. Conheça suas histórias. 

"Propósito que apaixona": como a geração Z enxerga o serviço público?

Para Lua Chiara, de 22 anos, é difícil saber quando ela decidiu ser servidora, já que o desejo vem de casa. Seu pai, Iran, é técnico de logística na Petrobras, e a mãe, Jerusa, trabalha como assistente social no Departamento Geral de Ações Socioeducativas (DEGASE), no Rio de Janeiro. Com a trajetória de seus pais, ela aprendeu o valor do estudo.

“Eu vi meus pais conquistarem tudo através do serviço público. Passar no certame, sempre me pareceu a melhor opção para alcançar uma vida financeira confortável, estável e realizar meus sonhos”, diz. O objetivo de ser servidora também a levou à faculdade de Direito. “Sabia que o curso me abriria oportunidades de bons concursos”, conta. Hoje, Lua concluiu o último semestre do curso, já aprovada na OAB, e nem precisou esperar a formatura para se tornar funcionária pública.

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Natural do Ceará, mas morando no Rio de Janeiro, em abril deste ano, Lua assumiu o cargo de Assistente Administrativa no Instituto Federal Fluminense. Seus colegas mais velhos costumam falar que Lua tem “brilho nos sonhos” quando pensa no serviço público.

Mulher segura papel
Lua Chiara durante a posse. Imagem: Arquivo Pessoal

A estabilidade encanta, mas não é o único motivo para a paixão. Para ela, o serviço público enche o servidor de dignidade. "Como trabalho em um Instituto Federal, vejo cada dia mais a importância da educação na vida dos jovens e o impacto da instituição na sociedade", afirma. 

A contratação PJ bate recordes no país, são 13,9 milhões de trabalhadores nessa modalidade, segundo dados do IBGE. A carreira pública vai na contrapartida desse aumento, trazendo estabilidade aos servidores. Lua acredita que, por mais que o mercado de trabalho venha sendo precarizado, a nova geração também tem adquirido cada vez mais consciência dos seus direitos.

"Nós conhecemos a valorização do trabalho e dos limites que devem ser impostos dentro desse ambiente. A geração Z não aceita 'qualquer coisa por trabalho', então observo um interesse pela carreira pública. Nesse mundo que vende 'ganhe dinheiro fácil', os jovens buscam estabilidade", defende. 

Lua acredita que, o cenário de incerteza trabalhista e sensação não conseguir alcançar os objetivos, também leva os jovens aos concursos públicos. Para os futuros concurseiros, a cearense indica focar em uma carreira e dedicar-se no preparo. Ela passa para frente um conselho de sua mãe: "Minha mãe sempre fala: 'A gente não faz concurso para passar, a gente presta até passar". 

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Geração Z no mercado de trabalho: comportamento nos espaços públicos e privados

Para William Dornela, professor, sócio-diretor do curso preparativo Os Pedagógicos e servidor da Secretaria de Educação do Distrito Federal, um bom servidor público deve ser comprometido, ético e resiliente, capaz de atuar com eficiência mesmo diante das limitações estruturais e de valorização da carreira.

Tendo essas características em mente, surge a pergunta: o serviço público também é lugar para geração Z? A resposta é: sim. Seja no mercado de trabalho público ou privado, as empresas ainda estão aprendendo a lidar com a geração Z. 

Como explica a psicóloga Bruna Lima e Silva, ter crescido no mundo digital forneceu a geração Z o consumo rápido de informação e a habilidade de lidar com múltiplas plataformas ao mesmo tempo. Eles são antenados e adaptáveis, inclusive no mercado de trabalho.

Bruna também aconselha que é importante se preparar para possíveis decepções no momento de buscar o trabalho ideal. "Investir em inteligência emocional, comunicação e saber lidar com frustações é essencial", explica. 

"O mercado de trabalho nem sempre vai oferecer respostas rápidas ou reconhecimento imediato que essa geração espera. Entenda que o crescimento profissional é um processo", afirma. Na hora de procurar um emprego, muitos priorizam a busca por algo que os forneça próposito.

E, de próposito, o serviço público está cheio. "O impacto social do trabalho pode trazer motivação", diz ela. Para William Dornela, outros pontos também levam os jovens para o setor público. "Enquanto as gerações anteriores buscavam o reconhecimento profissional acima de tudo, a geração Z valoriza a estabilidade e equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. Benefícios que são encontrados em mais cargos públicos do que na iniciativa privada", opina. 

William também enxerga um momento de transição no serviço público. Aproveitando a leva de aposentadorias e a inserção de modernização tecnológica na gestão dos processos, a Geração Z entra para transformar o setor com uma mentalidade mais inovadora, digital e voltada para resultados.

Para William, são muitas as vantagens de trazer os jovens para a iniciativa pública. Da conexão com tecnologia, que deixa os sistemas mais automatizados, ágeis e acessíveis, a visão colobarativa. "A geração Z é engajada e promove práticas alinhadas aos princípios de ESG. Eles valorizam um ambiente de trabalho mais dinâmico e pautado em propósito, o que pode fortalecer a eficiência e a conexão entre governo e sociedade", diz. 

De juiz a procurador: novos advogados no serviço público

O Direito proporciona uma gama de oportunidades de trabalho no setor público. As mais populares incluem juiz, delegado, defensor público e procurador. Dentro das funções da última, está consultoria e assessoria jurídica e promoção de ações judiciais, é isso que Sami Salim faz na Procuradoria Municipal de Aquidauana, no Mato Grosso do Sul. 

Aos 24 anos, Sami formou-se em Direito em março de 2024 e tomou posse do cargo em novembro. Com o pai também advogado, Sami sempre soube que seguiria para essa área, mas a carreira exata ainda era nebulosa. "Meu pai queria que eu seguisse para advocacia privada, já eu queria ser juiz", conta. 

A carreira de Magistratura é um dos cargos mais concorridos em certames públicos do país. Além da graduação completa, é preciso comprovar, no mínimo, 3 anos de experiência profissional na área. Durante a graduação, Sami acabou abrindo os olhos para outras opções de carreira, e um encantou: procurador.

"Defender o munícipio, gerando economias que podem ser investidas em áreas que realmente necessitam, é muito bom. Eu amo o que eu faço.  É uma carreira espetacular, que beneficia diretamente o cidadão", comenta. 

Sami Salim. Foto: Arquivo Pessoal
Sami Salim. Foto: Arquivo Pessoal

Sami atua na área judicial da Secretaria Municipal da Saúde. No trabalho, tem uma dupla, Irene. "O meu tempo de vida é o tempo de trabalho que ela tem no SUS. Com as trocas, eu sempre aprendo muito", afirma. 

O mato-grossense lembra, com risadas, da festa de boas-vindas. "Na hora de me apresentar, falei minha idade e todo mundo riu, brincando, que não ia falar da própria idade", conta. Mas, para conquistar a aprovação tão jovem, o preparo para concurso começou 3 anos atrás. 

Do quinto ao oitavo semestre da graduação, Sami criou uma rotina de estudos, de 2 a 5 horas por dia, de segunda a sábado. "Concurso não é para genio, é para quem consegue manter uma constância de estudo e aguentar um pressão absurda". 

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Na trajetória, prestou mais de 20 concursos, conquistando aprovação em 7. Para inspirar outros candidatos, Sami começou a produzir conteúdo nas redes sociais. "Tem gente do segundo ano do ensino médio que entra em contato, falando que quer prestar concurso. Eu até falo: “Calma entra na faculdade primeiro antes”, brincando.

Do TikTok ao Instagram o profissional busca dar mentoria para outros concurseiros. "Busco direcionar meu conteúdo para quem ainda está na faculdade, e quer começar a se preparar para os concursos. Procuro cobrar um valor mais acessível, para que o ensino seja democratizado", diz. Para, Sami, o futuro do Direito e da qualidade de serviço público está no concurso público. 

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