Para o auxílio da DeepSeek ser eficaz nos estudos para um concurso, é preciso solicitar comandos estratégicos para a sua inteligência artificial (IA)
Em janeiro, a empresa chinesa DeepSeek impactou o mercado da inteligência artificial (IA) após o lançamento de uma versão atualizada de seu chatbot. A plataforma oferece um serviço semelhante ao do ChatGPT – desenvolvido pela OpenAI, companhia dos Estados Unidos –, porém com um custo menor e mais acessível. Nesse contexto, a DeepSeek pode servir como uma aliada para diversas tarefas, como os estudos para um concurso público.
Antes de compreender como a IA pode auxiliar uma rotina de aprendizado, vale ter em mente algumas de suas características principais. A plataforma DeepSeek usa um modelo de linguagem conhecido como LLM (Large Language Model). De acordo com uma pesquisa publicada no periódico Principles and Practice of Clinical Research, esse termo se refere a uma inteligência artificial (IA) que é treinada com uma grande quantidade de dados de texto, com o objetivo de gerar respostas parecidas com a linguagem humana.
John Paul Hempel Lima, coordenador acadêmico do curso de graduação em Inteligência Artificial do Centro Universitário FIAP, explica que a DeepSeek foi desenvolvida com um custo de treinamento 20 vezes menor do que outros modelos, mas, ainda assim, consegue realizar tarefas avançadas de raciocínio. “Ela também se destacou por ser uma alternativa mais acessível e eficiente, quando comparada, por exemplo, com o ChatGPT (OpenAI), Gemini (Google) ou Llama (Meta)”, acrescenta.
Ao escolher o concurso público de uma determinada instituição para participar, o candidato precisa realizar um planejamento de estudo estratégico para a avaliação do certame. Grande parte dos processos são compostos por provas objetivas, mas também há a possibilidade de muitos concurseiros passarem por outros tipos de avaliações, como exames discursivos.
No ambiente virtual, algumas ferramentas podem auxiliar na organização da rotina de aprendizado, como a DeepSeek. Nesse caso, a plataforma pode ser usada de diferentes maneiras, como ajudar o candidato a criar um cronograma, explicar conteúdos de forma mais detalhada e, até mesmo, produzir questões e textos para a prática e teste de conhecimentos.
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“Os estudantes enfrentam uma grande pressão para obter um bom desempenho em concursos. Isso pode gerar várias dúvidas, como qual técnica utilizar, qual material será o mais assertivo ou, ainda, se as informações coletadas são verdadeiras”, diz Carlinhos Costa, diretor da plataforma Os Pedagógicos e especialista em concursos públicos na área educacional.
Ao usar a IA da DeepSeek, vale seguir algumas estratégias para uma assistência efetiva. Carlinhos fornece um exemplo baseado no estudo da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Nessa hipótese, a ideia é usar o seu chatbot para a elaboração de flashcards – ou seja, de cartões que ajudam na memorização de disciplinas.
Ele orienta que o candidato apresente o link da lei ao acessar o site ou aplicativo da DeepSeek. Com isso, o diretor sugere as seguintes tarefas a serem solicitadas no chatbot:
“Após esse procedimento, os resultados apresentados podem ajudar na construção de conteúdo para a revisão e síntese da lei que foi indicada”, destaca o diretor.
Com essa ilustração, o Estadão Concursos acessou o chatbot no site da DeepSeek, selecionou a opção “DeepThink (R1)” no bloco voltado para a escrita de mensagens e digitou os comandos listados acima. Confira abaixo as respostas do teste:
1. Analise o conteúdo da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e identifique os seus principais conceitos e artigos mais relevantes:
2. Selecione os cinco tópicos mais essenciais da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional que representem melhor o seu propósito e impacto:
3. Apresente um resumo conciso desses cinco tópicos, garantindo que as informações sejam diretas e adequadas para a criação de flashcards:
Vale citar que, conforme o site da DeepSeek, a opção “DeepThink” que aparece no bloco de mensagem do chat está relacionada à versão DeepSeek-R1, divulgada em janeiro.
Com isso, quando se trata de estudos pela plataforma, John destaca alguns pontos para a ferramenta ser aproveitada da melhor maneira. Uma de suas recomendações é o estabelecimento de um plano de aprendizado bem definido, compreendendo as matérias que precisam ser focadas e usar a IA para reforçar essas áreas.
“Além disso, faça perguntas diretas. Isso porque quanto mais específico você for, melhores serão as respostas. A qualidade do prompt, ou seja, do texto usado para obter respostas, está fortemente relacionada com a resposta obtida”, diz.
“Pratique bastante. Peça para a DeepSeek criar simulados ou exercícios e tente resolvê-los sozinho, antes de conferir as respostas”, ele acrescenta. Ainda, John orienta o uso de um método chamado “socrático”, em que o candidato deve solicitar no chatbot que a IA não dê determinadas respostas diretamente, mas que o auxilie a encontrar as fontes para as respostas desejadas.
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Assim, o coordenador do Centro Universitário FIAP elenca alguns modelos de perguntas estratégicas para serem feitas no site ou no aplicativo da DeepSeek. Confira:
Para testar a plataforma, o Estadão Concursos usou os três primeiros comandos elencados acima e escolheu a matéria de Língua Portuguesa como exemplo. Confira abaixo as respostas do chatbot:
1. Quais são os principais erros ao estudar Língua Portuguesa?
2. Crie um simulado com cinco perguntas sobre Língua Portuguesa:
3. Me dê um plano de estudos para aprender Língua Portuguesa em 20 dias:
Conforme John, outras dicas para a plataforma DeepSeek ser mais aproveitada durante os estudos para um concurso, são as seguintes:
Carlinhos complementa que o uso da ferramenta pode ser muito importante quando se trata dos seguintes tópicos:
Além disso, ele exemplifica uma maneira de pedir para a DeepSeek auxiliar na montagem de um cronograma. A ideia é solicitar a criação de um plano de estudos com a técnica de gerenciamento de tempo chamada “método Pomodoro”, incluindo ciclos intensos de estudo, pausas e revisões espaçadas. Nesse caso, vale apresentar as horas disponíveis durante os dias da semana.
Os sistemas de inteligência artificial (IA) baseados no modelo de linguagem LLM podem apresentar falhas. Um estudo publicado na plataforma arXiv destacou que os LLMs costumam produzir erros, incluindo imprecisões factuais. Por isso, quando se trata de estudos por ferramentas elaboradas dessa maneira, é preciso ter cuidado com os conteúdos recebidos.
“O DeepSeek usa modelos de IA generativa, treinados pela combinação de aprendizado por reforço e engenharia de recompensa. Dessa forma, o algoritmo aprende interagindo com um ambiente, por meio de tentativa e erro, recebendo feedback sobre as suas saídas”, explica Carlinhos, diretor da plataforma Os Pedagógicos.
“A inteligência artificial, por muitas vezes, não entregará o que se espera ou entregará com falhas. Durante a preparação para concursos, isso pode ser um grande problema, já que o estudante ainda não domina a temática e receberá informações erradas ou descontextualizadas”, alerta.
John acrescenta que em determinados testes, a IA da DeepSeek apresentou acertos superiores a 90%. Mas isso não significa que a plataforma é totalmente precisa.
“Tente pensar e resolver questões antes de pedir uma resposta. Além disso, solicite no DeepSeek a explicação do raciocínio que ele teve para chegar em determinada resposta. O DeepSeek R1, por exemplo, já mostra quando está habilitando o reasoning – ou seja, o pensamento profundo”, explica o coordenador.
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Por isso, é importante checar as informações recebidas. Ainda, considere o uso do aplicativo ou site como um complemento aos materiais tradicionais de estudo – e não como uma única fonte. Apesar da DeepSeek servir como um auxílio, ela não dispensa as horas de estudos organizadas em um cronograma de aprendizado.
O ChatGPT e a plataforma DeepSeek possuem um funcionamento semelhante. As duas ferramentas respondem perguntas, explicam conteúdos detalhadamente, geram exercícios e simulados, entre outras tarefas que podem ser solicitadas. Mas é possível identificar algumas diferenças entre os dois produtos.
“O DeepSeek apresentou um resultado melhor nos benchmarkings no uso da função de raciocínio, ou seja, de pensamento profundo”, diz John. “Já o ChatGPT é mais consolidado e, em alguns casos, pode dar respostas mais completas, principalmente sobre questões polêmicas”, adiciona.
“Com o mesmo comando, as duas plataformas podem entregar resultados diferentes. Ambas são interessantes, porém necessitam de criticidade, pois apresentam erros conceituais – podendo contribuir negativamente na preparação dos candidatos”, aponta Carlinhos.
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“A principal dica é usar a tecnologia a seu favor, mas sem depender dela totalmente”, ressalta John. Com isso, mesmo com a disponibilidade de ferramentas como a DeepSeek ou o ChatGPT, é importante se comprometer com os estudos para as avaliações de um concurso público, com bastante disciplina e prática. Veja, nesta matéria, dicas de especialistas para montar um cronograma de estudos tradicional.